CIDADE MODULAR

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    Uma criação audiovisual do compositor Armando Teixeira com o artista visual Paulo Romão Brás



    "Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para o outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus."

    Podemos tomar o início de «Lugar Lugares» de Herberto Helder («Os Passos em Volta»,1963) como parábola da cidade e das suas arquitecturas. O inferno e o paraíso encontrados são as obtusas abstracções humanas a tender para as escadas sem fim de Escher.

    A arquitectura fixa no tempo e no espaço a sua imóvel retórica estrutural. Uma eterna ilusão já que a realidade é alterada a cada novo segundo anunciado pelo relógio. Marguerite Yourcenar chama escultor à entidade sem corpo que persiste em moldar, degradar, reactivar cada centímetro quadrado do pequeno inferno, do pequeno paraíso. Da cidade.

    Por isso, os modelos, as maquetes, os esquissos, os alçados, as plantas… Coisas de museu! Dêem antes peças de Lego ou de Meccano a uma criança e logo ela reconstruirá o espaço em volta. A criança, instintivamente, identifica o étimo da cidade modular.

    A música é o contrário da organização monolítica de cimento e cantaria.

    Por essa razão, a infância projecta-se facilmente na música que preenche na totalidade o tempo em que se ouve e o espaço onde se ouve, desaparecendo no ambiente logo que termina. Surge depois na memória do coração, como acontece tantas vezes com a ancestral memória olfativa. A música reaparecerá mais tarde, sim, mas a cidade já será outra. Futurismo-ambiental ou música-ambiente.

    Toda a música é ambiente porque são deste os átomos que contactam em ressonância e vibração com os átomos de cada um de nós. Até mesmo a música mais erudita e mais acústica, mais programática, das vésperas de Pergolesi às estações de Vivaldi, do álbum de jazz de Chostakovitch às gnossianas de Satie, ao concerto de Colónia de Keith Jarrett. Tudo é o próprio ambiente onde ressoa, depois se dilui e desvanece.

    A «Cidade Modular» de Armando Teixeira não desdenha o passado de séculos de música ambiental, nem esquece a mais recente electrónica devedora dos proto-sintetizadores Clavivox ou Electronium de Raymond Scott ou da música para elevadores ou aeroportos de Brian Eno.

    «Calçada da Mouraria», o álbum expõe-se em abertura sinfónica reavaliando o pulsar das células de quem o escuta. «Alto Chapeleiro» intui a citada infância recriadora em peças de Lego e oferece-lhe de mão beijada um lento fluir botânico, vagamente nipónico. «Arco Escuro» receita o subaquático morse das baleias nocturnas. «Vale do Silêncio» tem o carácter homeostático dos passos que ressoam em volta da calçada, entre o sonho do silêncio e a angústia do espaço deserto. Termina «Eixo N-S», em andamento longo, com uma respiração vibrando em sinusoide sobre um plano metálico que resiste à distorção da apneia.

    A música sintética de Armando Teixeira tem a capacidade ampla e absolutamente livre de nos devolver a veia infantil e criadora de construir a cidade, definindo e apaziguando esteticamente a distância entre o seu pequeno paraíso e o seu pequeno inferno.

    «Cidade Modular», a bem guardar entre a pulsação urbana das imagens de Paulo Romão Brás.

    O ESPAÇO EM VOLTA DA CIDADE MODULAR

    João Eduardo Ferreira